Adequação
Vou tentando me adequar às horas,
Ainda que elas não se adéquem a mim...
A arte que crio recria a minha visão sobre o mundo.
Busco o encantamento perdido
Nas páginas envelhecidas dos sonhos,
Chamo a inspiração, que também me chama.
Lembranças umedecem os olhos,
Amolecem a rigidez das metas...
O CD toca a música que me toca,
As fotos na tela do computador
Revelam cores, traços, formas...
Que me revelam ao avesso.
Os meus heróis saltam das prateleiras -
Dos livros anexos aos meus reflexos.
Busco o alinhamento perfeito
Para a inspiração me possuir por inteiro...
Busco o seio que me falta,
O centro côncavo do sexo,
O umbigo-mar dum anjo qualquer.
Vêm-me à mente personagens, pessoas, situações
Que inundam os meus caminhos-veias.
Passam, partem, permanecem...
Andamos por entre teias.
Caminhemos! Antes que as pontes se quebrem...
Caminhemos! Luz, câmera, adéqua a ação
Na equação do universo,
Do verso que desune os laços obsessos
E revela o encanto da simplicidade.
Nathalia Wigg
“Melro Madrugador”
Acordei a meio da madrugada e ouvi
ainda estremunhado!...
Levantei-me devagarinho e fui à janela
espreitei com curiosidade e de perto o vi ….
Encantei-me com aquela melodia tão bela
que até parecia chamar por mim.
À quanto tempo o não ouvia
numa manhã tão fria!...
Tão melodiosa entoada
extasiado e cheio de nostalgia ….
ficando minha alma encantada.
Era um melro negro de bico amarelo
gracioso e muito divertido!...
que por magia parecia tão belo
declamava um poema tão sentido.
Quem diria que tinha tanto talento
para tão divertida canção ….
cantiga lançada ao vento
que penetra no meu coração.
Ai o melro!... esse vadio
é negro e muito divertido….
como é generoso e amigo
interrompe a cantiga com um assobio …
naquela manhã de frio ….
soltando de vês em quando um gemido.
Artur Cardoso
Gaiola Vazia
Sinto que quando saio de mim
deixo para trás uma gaiola vazia,
dando lugar ao tempo
que decorre intermitente
com o despenhar das folhas.
E há em cada despertar meu
um bater de asas tão forte,
que já nem sei se ainda habito
a terra que em mim habita.
Sim, é minha intenção perder-me.
Não adianta que me pintem
oceanos nas mãos,
se nunca os aprendi a ler.
E a ti, que tens um nome
igual a tantos outros,
deixo-te a flutuar no nevoeiro
das tuas ocas certezas.
Eu? Eu pertenço às árvores,
ao vento e a tudo onde caiba
o que em mim pode caber.
E há em cada palavra proferida
tamanha fugacidade,
que já nem sei se escrevo como falo
ou se falo como escrevo.
Sofia Gomes
Subo as escadas lá fora,
Degrau a degrau,
Como se nunca houvesse um fim.
Continuo passo a passo,
Dia após dia,
Apressadamente,
Sem ver realmente o que me rodeia.
Hoje preocupa-me onde é que a vida me vai levar
E para onde.
Caio vezes sem conta
sobre um colchão
E tento dormir
Mais uma noite.
Mais um dia.
Mais e contraditoriamente menos tempo.
Assusto-me.
Arrefeço de medo.
Gelam-se-me os pensamentos.
Choro silenciosamente,
Enquanto que a raiva que me aconchega torna-me inquieta.
Adormeço mais tarde.
Depois acordo e suspiro baixinho:
- O tempo não quer parar.
Rute Morais
Ninguém acredita naquilo que vê,
Ninguém mostra
Aquilo que é
"Todos somos diferentes"
Mas não
Todos somos iguais
Todos pensamos no que vemos
Portanto
Sonhamos com o que não temos
Amamos
Quem não devemos
E rejeitamos
Aqueles que realmente
Sabemos
Que o seu maior defeito
É querer-nos...
Filipe Fernandes
Prefiro não saber
Não sei porque razão
Mas escrevo Poesia.
Por arte ou necessidade,
Sei apenas que é tarde
E que o meu Mar de palavras
tem 21 portos de salvação.
[Os meus dias são versos,
Os meus meses são quadras,
Os meus anos são poemas.]
Então que a minha vida
Me encha de temas,
Me liberte da rotina
E me desvende o Ser.
Não sei porque razão
Mas escrevo Poesia,
Então que os problemas
Sejam a minha maresia,
Que me levem a escrever.
E que a escrita me leve a viver.
A razão? Prefiro não saber...
Casapio Di Caffi (Pseudónimo)
Partiste caravela, rumo ao mar,
Criancinha a brincar na agitação
De ser adulta, não ter salvação,
E saudade deixaste p'ra lembrar;
Saudade da certeza no chorar
E em braços de mãe ter consolação;
Saudade prisioneira da razão
Que livremente a dor tenta abafar;
Saudade que apertando lá no fundo
Do sentir desenlaça a curta vida,
Tão longa que a saudade gera o Mundo;
E em busca da inocência já perdida
Nas ondas da saudade, mar profundo,
Choro numa alegria desmedida.
Gonçalo Dias Figueiredo
A poesia
O sol corria de mãos dadas com a esperança,
Enquanto o dia se curvava num amargo fim…
Lá fora o vento anunciou a bonança:
Sobre a chama da paixão pousas-Te em mim…
Julgava-te sem brilho num deserto apertado!
Acordarei do silêncio? Nos meus olhos o mar,
Não tem tormentos… Vem evocar o passado!
És a semente generosa que regressa ao lar…
Aqui estou! Um servo na tua mão
Para receber a inspiração como sacramento.
Já sinto a espada nos meus ombros, com a verdade…
Numa salva suplico-Te: não sejas uma ilusão!
Quero os teus dedos nos meus num momento
Para que sentir de novo a imortalidade.
Peresalves
2011-03-23
Existo para ti
Bosque fechado, cerrado
Superstição
Eterno anel de noivado
Olhar nunca calado
Espero e esperarei
Serás sempre virgem
Enquanto não te provar
Deixa-te abandonar
Vem ao meu encontro
Perde o medo, ganha alma
Tira a pintura da cara
Mostra-me a tua calma
Simples, deslumbre
Hecatombe de desejo
O que eu faço por um beijo
Tudo, tudo, tudo
Um leito de rosmaninho
Esse é o caminho
Faço e desfaço e vou-te desfazer
Se às mãos me vieres ter
Aldeia Lacustre
As mulheres da minha aldeia
As mulheres da minha aldeia
Junto ao rio e à serra
Acordam em lua cheia
Pintam as unhas com terra
As mulheres da minha aldeia
Vestem capuchas e socas
Cansadas depois da ceia
Fiam cuidados nas rocas
Filhos são os que Deus quer
Só a natura as enleia
O pão é o que vier
E a alma é o que se quer
O trabalho é a sua teia
A família a sua ideia
São mais que qualquer mulher
João Sevivas
«Ímpio Caleidoscópio»
Caprichosa ente, também mente!
Refina-se lá no longínquo Olimpo
Disléxicas papoilas, sapiência extraem, atenção redobrada!
Entre o amanhecer e o anoitecer vangloriam-se das maçónicas sabotagens
Formidável sexto sentido! Mentes desincorporam!
Pecados mortais sugam, dignas trovadoras representam
Alambicam a canhoada, ELAS seleccionam!
Inteligentes escravos do prazer, os pinga-amores?
Engalanam-se de ricas sedas, pronunciam os andamentos!
Quantos mistos panejamentos! Sopram os teoremas
Espalham amiúde transcendentes fungos!
Ejectam as libidinais lentes humanas
Plantam ornatos aparelhos, cuidado Exmos. senhores!
Nada sabemos, nada tememos, ELAS tudo temem!
Indolentes e astutas propriedades ELAS economizam
Amálgamas de coloridos trejeitos, nas alheias areias esvoaçam-se
Disformes personagens, comprometidos olhares entoam
É a pauta dos bélicos contos!
Acordem! Autografam-se os suaves contornos
Tentamos desmistificar, mas mistificados adormecemos!
Cronometram as morais lições, as esfinges implementações
Corram, corram programadas criaturas, cegos sois?
Ouço decadentes pianos, isolam-nos a moral!
Ímpios caleidoscópios, quãs poderosas alucinações!
Por: Luís Filipe Marinheiro
Um dia, quando...
Um dia, quando o céu chorar e os anjos caírem
eu quero estar lá, bem perto do infinito
para apanhar uma estrela e guardá-la junto à chave
que encerrou a minha história.
Um dia, quando se calarem todas as vozes do mundo
eu quero estar lá, nos lugares que foram meus
para gritar cada palavra que inventei
para o meu último capítulo.
Um dia, quando pararem todos os relógios e o tempo ficar suspenso
eu quero estar lá, no vazio das épocas
para suavizar o peso dos anos apressados
e a contagem dos dias mortos.
Um dia, quando se aproximarem do fim todas as coisas
eu quero estar lá, no princípio do mistério de tudo
onde se erguem as derrotas e das ruínas se elevam vitórias.
Um dia, quando a vida se fundir no silêncio
e a morte se cruzar com o sonho
eu quero estar lá, no meio das sombras que vagueiam
para submergir nas utopias.
Um dia, quando os lobos uivarem para lá das cidades e um corvo vier
de onde moram os poetas já sem vida
com uma carta escondida na asa assinada por mim
significa que morri.
E nesse dia, quando eu morrer, não quero lágrimas nem luto.
Quero que as almas que ficarem do que restou da glória
me lancem em mar alto num verso branco
lá, onde segredo nenhum é desvendado e tudo se transforma em poesia.
E ao longe, bem distante, quero escutar
o cântico de um bando de gaivotas a sobrevoar as dunas
no mais sublime sinal de liberdade.
Leonor Teixeira
Caminhos de Luz
A cor de um segundo de emoção
É o azul que esverdeia a minha dor,
Voo no tempo e sonho com paixão
Por caminhos de luz no meu olhar!
Olhar que encanta em cada canto
Onde destemido enfrento cada perigo,
E por mares e horizontes percorridos
Semeio as flores do meu destino!
O destino cantado por embalos de amor
Que trazem a mim uma vida com sabor,
Um abraço apertado aquece minha alma
E num sorriso torna eterno um momento!
Um momento escrito numa doce verdade
Que tem de ser regada em cada silêncio,
Para que o fogo ferido do corpo que mente
Não se apodere da mente feliz e curada!
E nas lembranças de um passado cansado
Construo o presente que me ilumina,
Dou cor ao intenso futuro que sonho
E pinto desejos de esperança e alegria!
Desejos que me guiam a cada sombra
Onde o sol brilha num instante,
Pedaços de uma viagem de magia
Em busca da felicidade sem limite!
Luís David Ribeiro Rola
Finis Patriae
André Caldas
Na minha terra não há mais palmeiras...
Na minha terra não há passarinhos...
Na minha terra não há nem bandeiras...
Na minha terra não há mais moinhos...
Em ciranda da carne putrefata,
Voam os urubus, mais-que-famintos,
Homens e animais mortos pela estrada,
Todos os sonhos, pretéritos, extintos.
Desta terra o povo não é seu dono,
Mas há aqueles que se intitulam Reis...
Disseminam a miséria e o abandono...
Sem flores, sem amores, sem leis.
Nó górdio
Tatiana Alves
Todas as vezes em que ocorre um dilema,
Em que o homem se depara com o fracasso,
Ele pensa, ao mirar a própria algema,
Em tudo aquilo que lhe falta ou é escasso.
Não percebe, pobre homem, que, na vida,
O destino é voltar um dia ao pó
E que aquele que deste saber duvida
Está fadado a ser voz que canta só.
E blasfema, sem qualquer pejo ou dó,
Diante dessa dor que o arrebata.
Ignora que a vida é qual um nó
Que só finda quando a morte o desata.
Escreve-me
Escreve para mim o mais belo poema de amor, disse-te eu um dia
Tu olhaste-me com ternura infinda e correste desenfreado
à procura das palavras...
Colheste-as uma a uma e escreveste-as no papel
Lê-as devagarinho, disseste-me tu um dia
E eu, com medo do desengano, li as reticências, as vírgulas e os pontos finais
Quando terminei, no silêncio de mim, o coração chorou baixinho
com o assombro das palavras...
Apertei nas mãos e fiz calar o que tinha escrito para ti...
Definitivamente não sei escrever poemas de amor!
Margarida Pinto Duarte
Pequenos Nadas
São pequenos nadas
Que guardo no peito
Tal como este momento perfeito
Onde me encontro agora
E que me floresce o canto
Nos meus olhos de encanto
E que não deixo ir embora.
São pequenos nadas
Que beijam a ferida
Da minha alma com vida
Cheia de amor e saudade
E que se lançam ao mar
Para salvar os sonhos
Que ele me tirou por maldade.
São pequenos nadas
Que vestem com calor
As noites de luar
E que até à luz do alvor
Me fazem acariciar
Os pequenos nadas em flor.
São pequenos nadas...
São ternuras bravias...
Que me encantam as madrugadas...
Que me encantam os dias...
E a que me entrego com fervor
Pois estes pequenos nadas
São, tão simplesmente,
Pingos puros de amor.
Carla
Saudades de ti
Eu sinto esta saudade tamanha,
Do tempo que se foi e não voltou,
Daquilo que eu fui e já não sou,
E me faz sentir uma dor tão estranha.
Uma dor que carrego no meu peito,
Que me dói quando passo aquela rua,
Que durante tantos anos foi a “tua”
E eu olho para ela com respeito.
Sei que cada pedra da calçada,
Recorda o barulho dos teus passos,
Como eu recordo a tua imagem.
Agora o que resta, não é nada,
Apenas o calor dos teus abraços,
Que deixas-te na tua curta passagem
Idalina Pata
Mistério
Antes de manhã, talvez clara
Era a sombra do mistério que
Envolto em uma mística rara
Um sonho absurdo, antigo, navego.
E o mistério próximo, palpável,
Encarnou na hora terceira
E cri ser única, insondável,
A hora, breve, derradeira.
A velejar o tempo navegante
Onde nada resta, e a idéia vela,
Respiro a quimera, vaga, arquejante
E mergulho no absurdo que se revela...
O mistério, poeta, é o horizonte distante
Que contemplo da minha janela.
Gustavo Figueiredo
MORFOLOGIAS II – NOITES DE LISBOA
Com pincéis e tintas e água
construí fogos brancos, fulgores,
diluí melodias,
cedi a impulsos.
Desapareci ao acaso,
coloquiei de formas diferentes,
caminhei por entre buzinas e sirenes.
Cegos, todos cegos …
Canto do agreste,
abraçamos a intranquilidade,
a paixão, a indiferença,
a mão amiga não deixa existir portas de saída …
E então porquê, diz-me, assim se anima a noite,
fala-me das esquinas, dos bêbedos nos cantos
dos jardins,
a fonte, a vida, as prostitutas.
Então porquê, diz-me, tudo se apaga
num momento …
Fala-me dos dias também,
que o negrume escureceu,
fala-me da sorte, do azar e da certeza,
fada que o lume da estrela adormeceu,
fala-me de monstros e beleza …
Ocultas as noites, ocultas as manhãs,
por cada passo, que longa caminhada …
Fernando Lopes
ÂNSIA
Sou um mar tempestuoso que se estende pela praia;
Um rio de águas violentas fugindo das margens opressoras;
O vento agreste e purificador que sussurra entre as fragas;
Sou um pássaro que conquista os céus sem fim;
A borboleta que dança de flor em flor sem escolher nenhuma;
Sou tudo isso e muito mais,
Amarrada a uma existência que me oprime;
Ânsia incessante...Inquieta...
Sou imensa...
Sou mais do que eu...
E por tudo isso, não caibo dentro de mim.
No limiar da realidade e da fantasia:
é aí que permaneço.
Não sou de uma nem de outra: sou de ambas.
Sou imensa!
Por isso não caibo dentro de mim !
Calíope (pseudónimo)
Tudo
________________________________________
Anda comigo, observemos o mar,
E falemos e cantemos e juras e carinhos troquemos,
E amemo-nos na areia que luz ao luar,
E por fim, sob a chuva quente, descansemos.
Acordemos depois e de nós duvidemos,
Duvidemos de ti, duvidemos de mim,
Duvidemos do mundo e então por fim
Paremos, desistamos e pensemos e crescemos!
Não.
Tentemos o que não tentámos
E vivamos, ignorando que crescemos,
E apreciemos o que de mais belo visámos
E que por medo deste fado não fizemos.
Anda comigo e esquece o passado e o futuro
E esquece o presente, porque o tempo é só um,
Porque é por ti que eu vivo, e é a mim que censuro,
Porque és tu a razão de eu ser todos e nenhum,
E por isso vive! Vive e ama-me,
Porque é tudo o que peço e tudo o que quero!
Ama-me!
É tudo o que espero…
Paulo Buchinho
A PALAVRA
As palavras versos dão
Pela pena do autor
Mas creio que muitas são
Entrelinhas para o leitor.
A palavra é uma paixão
Quando se dá grã valor
E se cruza o coração
Tudo faz por ser amor.
A palavra é uma semente
Que germina amiúde
Em retalhos do presente.
A palavra só se admira
Quando a morte ou a saúde
Para outro mundo nos tira.
Cidália Miravento
Nós e o Mundo
Sopra o vento lá em cima no sopé da montanha,
Onde o ar é mais puro
Onde posso tocar o céu
Onde posso ser quem sou.
Fico fascinada com tanta beleza colossal,
Tudo é mágico tudo é completamente sideral,
Já não vejo o Mundo ao nível do chão,
Vejo-o e sinto-o em todo o seu esplendor
Tudo o que os meus olhos alcançam é surreal
Perco-me na tua beleza e encantamento.
Corro por entre o teu afloramento e o limite que existe em ti
Nada em ti é superficial tudo é visceral, intrínseco,
É o teu interior que me mantém centrada, inteira, completa e audaz.
Num só impulso, salto para o teu abismo
Enfrento o medo o receio
Com a necessidade fundamental
De te ver numa outra perspectiva
Diferente do natural.
Ao descer em queda livre liberto toda a energia
Que há em mim juntos numa dança inconstante e alucinante
Perco-me na tua eterna forma até tocar novamente
No teu manto firme, que me faz acordar para a realidade
E congelar em mim cada momento que há em ti.
Sónia Manhita
Regaços Infinitos
A vida mora em cada pedaço de mundo,
Num orgânico esplendor de diversidade,
Que ausenta o tempo de qualquer segundo,
No olvido do preceito que nos escreve Humanidade.
É uma junção de sangue avulso
Que estoicamente desagua numa imensidão,
De sensações que te avivam o pulso
E maresias aprazíveis à razão do coração.
São árvores outorgadas ao conhecimento
E um misto de sons que unem as gentes
Uma ponte instintiva a cada elemento,
Que ecoa num céu de seres reluzentes,
Espelhando o prazer de uma onda do mar,
Ou um manto de neve na vizinha montanha,
Consagrando à natureza o prazer de se amar
E aos sentidos esse grado que se entranha,
Por entre qualquer infinidade de existência
Que possa por aí insistir em permanecer,
Qualquer bárbara paixão de inocência,
Onde um Homem possa se socorrer
Dos olhos da norma que ensina a mentir,
E esquecer a infância que nos traz à felicidade,
Apregoando momentos próprios para sorrir
E enredando o prazer inapto da simplicidade.
Não é dos grandes que reza esta mensagem,
Nem dos actos descritos como eternas glórias,
Mas sim de provar pelo sabor a viagem
De entregar à efemeridade qualquer memória.
André Rala
Teus Olhos
Teus lindos olhos, feitos de histórias
De aventura, de pontos de luz
Envolvidos, sobre uma sombra
De perguntas e claros de respostas
Respondidas perante a vida
Do que te rodeou e envolveu,
Do que ficou, do que desapareceu...
Mas tua visão demonstra
A abertura para um mundo de tranquilidade
No qual teu olhar profundo deseja
E pede para seres tu a o governar...
Não vês somente o que queres,
Empurras teu olhar para tudo o que não
Pudeste ver, para uma realidade
Que faça teus olhos descansar,
De focar os detalhes de um mundo que pouco te diz
Do qual olhaste e não acreditaste que fosse somente assim...
Projectas uma força incrível que não te deixou
Para trás, que não esmorece de teus olhos...
Como o mundo não foi preparado para a perfeição do teu olhar
E ele não foi feito para te ver, esse desentendimento
Foi alcançado pelos meus olhos, tantas vezes distraídos
Em pensamentos de utopia, que me fizeram crer
Em outros elementos que o mundo não suporta,
Mas os teus lindos olhos, calmos, enfurecidos, meu amor
Foram eles que fizeram ver aos meus que a beleza,
A autenticidade que o mundo perdera,
Se encontra no teu olhar mais simples...
Sílvia Barroso
Sádico
Vem divertir-te no meu jardim perverso
Em flores estendido e ordinário
Põe-te ilustrada por avesso
E agita o teu chapéu como um corsário
Que eu te quero sem amor debaixo
Das Palmeiras e de Abacates
Que eu quero-te lisa num banco estreito
Sonhado a ouro de nenhum quilate
Porque Amor é droga seminal
É soneto que se dobra de um regaço
E o teu corpo é mais belo afinal
Na demora de um astro
Tu que preferes os ventos por sentir
Deixas-me embora frágil, desmedido
Na praia onde delira inexplorada
A nossa Amizade arrebatada!
Daniel Correia
Deusa
Passeias-te com o teu ar superior de quase imaculada.
Essa tua pose quase idílica deixa transparecer
Uma perfeição quase notável que me deixa estarrecido
A olhar para ti
Como se não existisse mais nada,
E mesmo existindo
Tudo o resto não tem importância alguma.
Mas que figura tão platónica a tua.
Brincas com os passos como quem dança
Uma dança eternamente feliz.
Danças e giras o mundo à tua volta
Com uma facilidade incrível.
És tu quem comanda o mundo.
És tu a dona de tudo o que existe.
Deusa.
Decifrar o Céu
Soubesse eu decifrar o céu,
Códigos estrelares escondem o infinito querer,
Anciado pelo mal, porém inálcansável
Pelo seu cego querer de poder;
A chave é pura, de simples ternura,
Que seja sem ser o seu desejo,
Qual beijo á inocência, qual beijo
Esconde em si os lábios de quem ama,
Mostrando apenas o que ninguém vê,
Mostrando apenas o doce calor de uma chama!
Decifrar o céu, qual chave?
Com o coração qualquer porta abre,
Qualquer combinação se assim for
Qual o céu que não abrirá o amor?
Qual o fim do infinito céu, qual?
P´ra quem ama não há, finito será o mal
De quem precisa porém de um simples perdão,
Pois em sofrimento profundo estará o seu coração;
O amor verá o infinito do céu
Puramente pintado, reflectido no mar,
A chave estará em qualquer coração,
A chave será a simplicidade de amar!
Guilherme Almeida
asas bravias
batem
sem contenção
num movimento rudimentar
as asas
da contradição
não aceitam conformismos
não têm a beleza
de um majestoso voar
não têm a riqueza
que embeleza a visão
não são simétricas
na sua envolvência
não registam
o agrado dos semblantes
mas são a força pura
da liberdade
António MR Martins
Não estava apaixonado,
comprou pipoca e deu aos pombos,
não por piedade, mas por não ter o que fazer.
Sentou-se no banco e olhou para o céu,
não viu desenho nenhum,
apenas uma nuvem disforme.
Pensou no vazio e na segunda que estava por vir,
foi pra casa, não havia motivo para estar ali.
Eryck Magalhães
Amo a vida a preceito,
Amo a vida com ardor,
Amo todas as mulheres,
Amo todas sem amor.
Amo a minha liberdade,
E a minha paz também,
Amo a minha vaidade,
E o meu querer, eu sei.
Amar sem amar,
É igual a tudo e nada,
Experimentem não respirar,
Manter a boca fechada.
Aquela distância que passa,
Aquele tempo pequeno e curto,
É enfim o amor que tarda,
No seu correr absurdo.
Amo tudo e nada,
Amo de certeza alguém,
Descobri que amo,
A minha pessoa também.
Haja amor..
Fernando Silva
Intimidade…
Mãos se unem por entre olhares encantadores
Aconchegam-se bem de leve e tocam-se pelo coração
Olhares se fundem como feras e pecadores
Lábios se beijam ritmados numa canção
Toques suaves se fazem deslizar
Magia por entre os dedos e suspiros
Corpos num só corpo se fazem amar
Momento preenchido de todos os outros vazios
Gritos de prazer unem a terra e luar
Tempestade se acalma por entre vales e rios
Tranquilizam-se as ondas do mais severo mar
Seres se enlaçam pelo nó de dois fios
Intimidade num estado de alma pessoal
Dois corpos se entregam pela magia do amor
Sentimento puro de tal forma natural
Corações solitários se juntam com ardor!
Sónia Isabel de Campos Lopes
Meus olhos
Meu olhar dança nas ondas azuis das montanhas,
Caminha, corre, sobe e desce a ladeira distante.
Olhar bêbado sai vagando caminhos sem volta,
Embrulhando momentos, só por um instante.
Meu olhar voa sem medo outros mundos,
Vislumbrando espectros sombrios das florestas
E com os olhos de dentro vê o que lá fora dorme
Aquilo que fica nas esquinas, nas arestas.
Meus olhos dançam de roda nas cirandas,
Brincam de amarelinha jogando a pedra ao léu.
E tonto de rodar pisca, pisca como estrelas
E a menina do olhar vai cair lá no céu.
Tenho nos olhos a nascente de um rio salgado,
Onde embarcações viajam sem eira nem beira.
Nas suas margens, ribeirinhos dançam e cantam,
Lavando as mágoas no rio-mar, que nem lavadeira.
Num sono profundo muito além do mundo
As janelas dos meus olhos vão se fechar
Não bata na vidraça, não faça ruído algum.
Apague as luzes e sai de mansinho, devagar.
De novo por cá
Já chegaram, estão todos cá
os hitleres voltaram há minha terra,
solenes, mil promessas fazem já,
vida boa para todos, nada de guerra
Dizem que vieram de amor fardados
Nem espingardas, nem espadas
de sorrisos nos lábios vieram armados
de boas intenções, abonados
Andam aí todos pelas ruas da minha terra
Falam manso, a todos dão uma mão
juram que tudo fazem a bem da nação
Já voltaram os dias da noite escura
Já a mentira, sua adaga enterra
Já a verdade deixou de ser segura
Zé Ru+
Sorri,
Sorri sempre
Com teu sorriso alegre, generoso, colorido
Com teu olhar brilhante, onde tudo faz sentido
Com graça de sonhador, cheio de ideias e esperança
Sorriso solto, inocente, que lembra uma criança
Sorri
Sorri agora mais alto, com mais força, mais talento
Deixa o teu riso voar, ser levado pelo vento
Pairando sobre a cidade, sobre o campo e sobre o mar
Ouvindo-se em todo o lado, e o mundo contagiar
Ri ainda mais um pouco, provando que és feliz
Mostrando que o nosso mundo é melhor do que se diz
É nele que nós crescemos, construímos, aprendemos
Que o sorriso mais sincero é o melhor que oferecemos
Sorri,
Sorri sempre
Com teu sorriso alegre, generoso, colorido…
Paula Baúto
Quando o meu corpo gelar
Quando o coração parar
Quero esquecer o mundo
Ter a alma a divagar
Quando se for o que sou
Quando morrer o que fui
Quero apenas perder
A noção de quem da alma usufrui
Quando esquecer quem és
E esquecer aquilo que sou
Quero perder os pés
Para não ir onde vou
E quando uma flor negra chorar
A minha triste melodia
Quando o meu corpo gelar
E quando acabar o meu dia.
Andreina Duarte
“Se me pedisses”
Se me pedisses uma aguarela,
Dar-te-ia o arco-íris,
As sete cores para navegar
Percorrer num barco à vela
Até onde ele acabar.
Se me pedisses uma flor,
Dar-te-ia os jardins suspensos da Babilónia,
Faria deles o teu canteiro
O mundo antigo inteiro
Ao teu dispor.
Se me pedisses um anel,
Dar-te-ia os anéis de Saturno,
Enrolar-te-ia na minha capa
Partiríamos num voo nocturno
Pela galáxia.
Se me pedisses um vestido,
Dar-te-ia o baile da Cinderela,
Uma dança de sonho como a dela
Que durasse muito para além
Da meia-noite.
Porém, se me pedisses desculpa,
Chamar-te-ia apenas infame e cruel,
Ou não sabes que a tua única culpa
Está nesse teu sorriso de mel
Com que derretes o mundo de este a oeste
Como me fizeste?
Bernardo Dias
"Acabaram-se as palavras"
Acabaram-se as palavras
Só resta o amor
Acabaram,
Fui buscá-las ao Dicionário
termos, notas, canções
poemas de amor
Incendiaram-se contigo
Consumaram-se
Tornaram-se fogo,
Violento
abrasador
Mas já não há palavras
para expressar, para dizer, para falar
A linguagem é a pontuação de dois corpos nus
em vigília, na noite
O silêncio tomou conta
de nós
A paixão numa palavra ?
Absurdo
Acabaram-se as palavras
só resta o silêncio ruidoso dos corpos
acabaram-se as palavras
só resta o amor
Autor Rui Miguel Gonçalves Marques
O Poeta do Poema.
O poeta escreve o poema
O poema é o próprio poeta
O leitor lê o poema e interpreta
O poema já é leitor e não poeta
Mas o poema volta ao poeta
E vêm também novas idéias
E o poeta já não é o mesmo
O poema já não é o mesmo
O poeta lê o poema e interpreta
Agora o poema já não é o poeta
O poeta já não é o poeta
O poeta é leitor e interpreta
O poema é o poema do poeta
Que ficou longe do leitor
Que um dia sonhou em ser poeta.
HORIZONTE NU
Aqui o litoral seduz o corpo,
a água esconde um mar de sêmen,
a espuma lambe os pés com língua de sal.
Dissessem antes do horizonte nu,
a inauguração teria sido na linha do oceano,
jamais entre as paredes de uma casa.
(Casas degolam liberdades.)
Ao vento marítimo todos os rumos são possíveis,
as algas abrem caminhos múltiplos
atraindo os passos dos pensamentos,
submergindo o mofo dos dias.
Dissessem antes da solidão atlântica,
a inquietude urbana viria para um banho de sol,
estariam vazias as ruas e as pessoas.
Ruas têm sempre esquinas
e pessoas são sempre cascas de subterfúgios,
ambas não conhecem o dialeto infinito da distância.
Aqui, ao pé das ondas, decifra-se a escrita dos náufragos.
Apenas dedos afundados no abismo
narram com claridade a vida.
Aí atrás está o fim do horizonte,
um arremedo de horizonte com roupas sobre a pele.
Há a resposta que o sangue vomita.
Há mais casas que céus, mais pó que gotas
e um chão sem areia morna nem cheiro de maresia.
Nesse lugar o futuro é um peixe nascido sem nadadeiras.
Pode Amar é de Graça
(Eduardo Santos)
Pode amar é de graça.
Frio
Sujo
Curto
Sou
Casa
Nojo
Pode amar é de graça.
Sexo
Bucal
Carnal
Tua
Fantasia
Carnaval
Pode amar é de graça.
Bebo
Desgraça
Enquanto
Que
Minto
Sonhos
Pode amar é de graça.
Grátis
Sou
Quase
Brinde
Em
Tua
Vida
LEMBRANÇA DE DELETAR
A Álvares de Azevedo
Quando do mouse desprender-se o fio,
que liga o computador à mente,
será o fim de meus delírios
neste mundo de doentes.
E se uma lágrima as pálpebras me inunda,
se uma luz na tela insiste ainda,
é pela amiga virtual… a quem nunca
um vírus destruiu a face linda.
Registrem, pois, meus feitos literários
nos sites, entre muitos, esquecidos;
e a página do orkut, escrevam nela:
- Teve um blogue – apagou – e perdeu a vida.
Edweine Loureiro da Silva
O Enigma da Vida
Com o desbravar do Universo
A vida ressurgiu
Como estados formidáveis
Em harmonia com campos imagináveis
Coisas materiais existem
Mas nada representam
São apenas estados da matéria
Em harmonia com nossa própria consciência
Entender em minha concepção
É mais do que assimilar idéias
É compreender os mais profundos estados de interação
Que interagem com nossa própria existência
Compreender é como vivenciar
Aquilo que mais queremos
Querer em meu pensar
É se situar além do imaginar
Ao vivenciar o Universo
Busco respostas para o meu passado
E mesmo quando não as consigo
Ainda tenho esperança de concebê-las
Finalmente busco algo
Que não julgo ser o mais palpável
Pois se o seu acesso fosse fácil
Perderia o sentido de desbravá-lo
A vida é como um enigma
Um enigma que o Universo nos impõe
E como o Universo há de ser dinâmico
Temos de flutuar nos horizontes de nossa consciência
Paulo Tasso Diniz Filho
BRINCANDO COM O PORTUGUÊS, A LÍNGUA I
No balé das palavras, orações:
Simples, compostas, com ou sem sujeito.
Sinônimos de tantas emoções
Batimento forte dentro do peito.
Cada linha da vida assim descrita
Na palma da mão, bendita e desdita:
Sensações, quimeras verbalizadas;
Paixões, em vários tempos, conjugadas.
Dá pra brincar, tamanha a sua destreza,
Co’a minha, a nossa língua portuguesa,
Juntando tais vogais e consoantes.
Em frases corretas ou destoantes,
Nada mais será como já foi antes:
Tremas, acentuações equidistantes.
areg
Eterna busca
Diana, caçando se caçava.
O que ela caçava era sombra.
E quando pensava alcançá-la,
Ela escapava.
A cada passo que dava,
Mais dez passos ela se afastava.
A distância maior se tornava
E a busca nunca acabava.
Diana, caçando se caçava.
Pena, ela nunca se capturava.
Ainda vejo seu rastro pelas matas.
Passos firmes em busca de nada?
A busca, eterna se tornava.
Estranho,
Por que Diana não desanimava?
Jonathan Gonçalves
OLHOS RESGUARDADOS
Por trás dos óculos escuros,
sou semionipresente
e um pouco inimputável.
Posso chorar pelas ruas
e olhar as pernas tuas
e você não vai perceber.
Não, ninguém vai perceber.
Por trás dos óculos escuros,
tudo é mais negro, eu admito,
e a vida é menos colorida.
Mas é menos dolorida,
muito menos invasiva.
A luz solar não me cega se a encaro.
Por trás dos óculos escuros,
sou meio homem, meio deus,
adquiro onisciência.
Analiso expressões faciais,
avalio posturas corporais:
de invadido a invasor,
de agredido a agressor.
Por trás dos óculos escuros,
e somente aí,
sou quem sou.
(Marcelo Maio Coelho)
Sonho invisual
Numa densa escuridão
Que leva a alma a vaguear
Sinto a leve sensação,
De não estar a sonhar.
Folheando a vida
Página a página sempre em vão,
Numa história não lida
Numa fantasia e eterna ilusão.
Vou descobrir a verdade
Nas entrelinhas do meu ser,
Vou emergir da soledade
Da angústia de nada ver.
Destemido, vou cavalgando…
No dorso de um meigo vento
Num doce e belo momento
Num encantado sonho celestial…
Vou, desbravando estradas
Empunhando espadas
Numa batalha desigual.
Sou, um invisual sonhando.
Alma Lusitana
Sopro do Horizonte
Eram pelas ruas caiadas, perdidas, despedaçadas,
Que meus pés traçavam doces prantos à vida.
Oh! Bendita és, sentida, raiada…perdida!
Por essas mesmas ruas, descalças,
Raiava a aurora, se abria sobre o momento
Em que a felicidade querida, voltava
E desejava eu que já fosse o seu tempo!
De que seriam meus pés, tão maltratados?
Violinos se calam perante meu pranto,
Meu olhos se fecham sobre as malditas horas.
Fosse eu forte, conseguisse eu seguir em frente.
Mas as malditas dores floriam, descompassadas…
E os suspiros se tornavam graves, duros, incansáveis!
Oxalá fosse outra a hora, mas não era…
Não o era, infelizmente.
Sofia Duarte
Impossível
Se me negasse, Amor, ao teu amor
Era abdicar de ter aquela dor
Que gosto de sentir no coração;
Era deixar de ter os teus abraços,
Sentir os olhos rasos da água e baços,
Passar a ter momentos de aflição;
Era deixar de ter loucos desejos...
Perder os teus carinhos... os teus beijos,
- De que sou obcecado e dependente; -
Era apagar o brilho dos meus olhos...
Deixar no coração vingar abrolhos...
Ficar numa ignorância permanente;
Era deixar de querer ter-te comigo...
Negar este meu peito ao teu abrigo...
Deixar uma cratera imensa aberta;
Era não me dar conta da demora...
Quando marco um encontro sem ter hora,
Na ânsia de te ver à hora certa;
Era perder o Sol de Primavera...
O beijo que tens sempre à minha espera...
E o teu sorriso doce de criança;
Era sentir meu próprio coração,
Naufragar, sem possível salvação,
Num mar de tempestade sem bonança;
Era deixar meu cérebro parar...
Esquecer de conjugar o verbo amar,
- Que contigo aprendi tão docemente… -
E ter, de tanta dor, a sensação
De não sentir bater o coração,
E que perdi a vida de repente!
Aurélio Barata Vivas
Arco-íris perdido
Cheiro a terra quente a beber da chuva.
Gosto a pó seco, paisagem turva.
Balada de água pura, desmaiada
devagarinho até aos meus ouvidos.
Chove...
e escorre...
e antecipadamente morre
numa sinestesia trágica.
Seguem-se alguns lamentos,
já se ouve o romper do céu.
Rasga-se agora em secas lamúrias
como quem chora ameaçado,
amordaçando-se para depois se calar.
E de novo a terra seca e o pó.
O odor chegando-me às mãos
e a paisagem turva que só
se vê por dentro da pele.
Ficou o chão lavado... levou
mas ainda tenho um punhado, de mim.
Ainda tenho a alma, o pó e as sombras e
vou banhar-me neles até que me apeteça morrer.
Entretanto, fico à espera de ver chover
nesta terra perdida e morta de fome,
esquecida e torta de tanto arder
ou talvez, com sorte, dum sinestésico arco-íris.
Impiedosamente o cheiro parte
e a música cessa... seca-me
os sentidos na última gota das palavras.
Sílvia Ferreira
Dedilhados de memórias
Como é bom
Sonhar ao som da guitarra,
De suave e calmo tom
Que me desperta e amarra
Ao conforto relaxante,
Da cadeira da Sabedoria!
Tu sim, serias minha amante
Na cama, no chão, no céu todo o dia
Perdura a suavidade da guitarra!
Vibram as cordas tocadas
Na sua ordem doce e musical.
Recordo aventuras e mulheres amadas
Sons, gostos, texturas d´índole divinal
Toca guitarra minha vida
Sou eu o guitarrista!
Incansável, descobridor, curioso, malabarista
Que soou as notas da pauta não lida!
Miguel Paiva
Um dia
Um dia cheguei a casa triste.
Tinha perdido a vontade de sorrir,
A vontade de ser feliz.
Sempre soube dar o meu melhor,
Mas nesse dia, algo me impedia.
Foi então, num momento inesperado,
Quando mal tinha chegado,
Que me deram a te conhecer.
Olhei para ti pela primeira vez
E a partir daí, nunca mais te quis esquecer.
Ao fim do dia, quando a noite chegava,
Era nos meus sonhos que concretizava
O que tanto esperava.
Tentava te conquistar para um dia me amares.
Achava que seria muito difícil acontecer isso algum dia,
Mal imaginaria eu, o que a seguir viria!
Voltei a ver-te mas desta vez foi diferente.
Tive a certeza que queria te ter
Mas tinha medo não te corresponder.
Foi então, num momento inesperado,
Quando mal nos tínhamos encostado
Que a nossa história foi iniciada.
Deste-me a mão, de seguida o teu coração
E aí, sem hesitação
Nunca mais te quis perder seja qual fosse a situação.
Agora, todos os dias chego a casa feliz.
Ganhei a vontade de sorrir e a dar o melhor de mim.
Isto tudo foi possível porque te tenho a ti
Para completar a vida que há em mim.
Aurélie Sobreira dos Ramos
No meu mundo
No meu mundo existe sol
E também existe mar,
E dele avista-se um farol
Que serve para me avisar.
No meu mundo existe amor
E muita solidariedade
Mas também há furor
E muita crueldade.
No meu mundo...
No meu mundo...
Gostava que fosse diferente,
Que houvesse mais
Alegria e menos tristeza
Que houvesse paz,
E muita beleza
Por todo o mundo.
Patrícia Caldeira
Oh Afonso que foste tu criar,
um país que vive virado para o mal.
Filhos matam pais para poder comer,
pais matam filhos com medo de morrer.
Outrora um país de grande glória,
glorificado com o sangue dos de fora,
agora um país que vê o tempo sem hora,
um reino sem rei como ele um dia fôra.
Meu Portugal, que nunca foste muito meu,
para além do chão onde o meu avô morreu,
nada fizes-te para salvar nenhum dos meus
é ser português sem ter amor aos seus.
Levantas as armas contra o teu povo,
dás riqueza àquele que te come o ouro,
Portugal, como ficas-te louco,
queres ser português, com a espada de um mouro.
por Júlio Ventura
dar-te-ia apenas um reflexo deste mundo em que te penso
para que pudesses dar um novo significado à primavera
ao reflorescer das gerberas aos amigos que amas devagar
para que o poema que trazes guardado no coração do silêncio
se revele como os débitos como o ângulo errado da geometria
como a pulga de areia que traz a saudade do verão aos dedos
e não
não é nunca um sonho louco o sonho mais louco que há-de haver
ou mais complicado de se dizer ou de se orar ou de se escrever
porque o homem sem a loucura que o é não é senão o que pensa ser
por isso
dar-te-ia apenas o perfume a melodia o guache exacto da escola primária
e o rabisco a carvão (6b) deste encanto desta irrepreensível natureza
deste poema que trago ao peito ao word ao blog ao facebook ao livro
para que pudesses
dar um novo significado à vida
sorrir mais
brincar mais
amar (ainda) mais
João Pedro Manso
POBRES MENDIGOS
Vou vivendo dormindo ao frio, e à chuva
Na companhia de outros irmãos mendigos
Na cidade, na estrada ou numa curva
Somos vidas de passados incompreendidos
O céu de dia, ou de noite, é nosso telheiro
Andamos rotos, descalços, e em desalinho
Temos a doença e fome, como companheiro
Esperando p'la morte que chega de mansinho
Andamos por aí, sem enganos
Procurando a beata deitada fora
Contemplamos a natureza que amamos
Vivendo connosco a toda a hora
Cruzamos gentes, que não nos olha
E p'ra elas, nem sequer falamos
Somos um livro que não se desfolha
Guardado em baús há muitos anos
Não passamos de uns pobres mendigos
Em busca de amor, por aqui, e ali
Temos a dor que dói, entre amigos
E só distribuímos o bem, vagueando por aí
Os degraus das Igrejas são o nosso trono
Oferece-nos as noites gélidas como retiro
Deitados em velhos cartões, fazemos o sono
Até que Deus um dia, pare nosso suspiro
De: fernando ramos
Perdi-te
Perdi-te como alguém que perde a sombra,
numa tarde de verão.
Busquei-te em mil sombras do entardecer,
e encontrei-te na madrugada do meu viver.
Busquei-te em sábios e feiticeiros,
em bruxas e conselheiros.
Mas perdi-te?
Sim, mesmo ali ao dobrar da esquina do meu coração.
Saíste sem abrir a porta, na qual entraste sem a fechar.
Nas trevas sinto o teu cheiro e sigo-te.
Mas não te encontro.
Perdi-te?
O vento trás-me o teu pensamento,
e a chuva as tuas lágrimas que nunca chegaram a cair.
O frio trás-me o calor do teu corpo que nunca se aqueceu.
Agora sim, sei que te perdi.
Eunice Santos.
Conto os minutos
Conto os minutos num relógio onde os ponteiros
parecem não fazer qualquer movimento que seja,
por alguma razão o tempo parece não passar
e nada faz diminuir esta sensação de angústia e vazio,
busco em vão os seus movimentos certeiros
e aos meus olhos não há diferença que se veja,
por alguma razão sinto-me presa, sem respirar,
chorando por dentro até mesmo quando por fora rio.
Conto os minutos que se arrastam penosamente
como se não quisessem que o tempo existisse,
por alguma razão sito-me quase a adormecer
e não consigo avançar e mudar o meu destino,
busco uma forma de me libertar desta corrente
e entrar num mundo onde de facto eu existisse,
por alguma razão sinto que me estou a perder
e começo a sentir-me um simples clandestino...
Hisalena
Nome: Tiago Perdigão
Título: Não é presente é passado
Isto é meu
mas no passado era teu
armado em Romeu
não sei o que é que me deu.
Foi por causa da pouca sorte
foi como se fosse morte
e não o farei embora digas
que tenho que seguir ao Norte.
Eu sei, tu sabes,
todos nós sabemos
não é futuro é passado,
é tudo o que já não temos.
Eu dei, tu deste
até mais do que tiveste.
Dói-me tanto
faz tão falta o teu canto,
todos os dias,
penso nisto constantemente
tão dolorosamente e arduamente
porque tanto tempo depois,
isso ainda me corrói a mente.
É triste
mas esta dor ainda existe e persiste,
já nem ao espelho me consigo olhar
quero amar
fazer com que possas voltar
até à próxima
até um dia,
espero até lá te voltar a encontrar.
Nasceu-me, hoje, um soneto descuidado,
Fazendo ouvidos moucos à razão,
E todos vão dizer que veio em vão
Pois jamais gostará do nosso Fado…
Mas o que aconteceu foi que, o estouvado,
Não sabendo fingir, nem dizer “não”,
Mal ouve os mil acordes da canção
Corre a abraçar-se a ela, alvoroçado…
Coitado do soneto… apaixonou-se
Por um fado qualquer que então passava
Nos lábios de um fadista, nas vielas,
E nem sabe dizer quem foi que o trouxe,
Que guitarra, trinando, assim chamava,
Que estranhas vibrações foram aquelas…
Maria João Brito de Sousa – 21.01.2011 – 19.01h
Espelho D’água
Tracejei nos espelhos profundos dos rios
a face da pessoa amada.
Com os chuviscos das neblinas nevoentas
fiz seus cabelos e sua boca sedenta.
Com as gotas das minhas lágrimas de saudades
desenhei seu olhar, mas ele não me via.
Todavia, no seu rosto, lágrima de saudade também escorria.
E sua face no espelho d’água refletia a serenidade de quem já se despedia.
Seu olhar ausente timidamente encontra o meu.
Arrisquei ainda nas linhas tracejadas por um pouco de sua alma.
De repente, a sua alma, por entre meus dedos escorreu.
Em vão tentei contê-la.
Tarde demais...
Afogara-se em águas de profunda dor.
Saulo Daniel dos Anjos Leite.
Pedras com Alma – Homenagem à Sé
Da pedreira soltas
à custa do sol, da forma e do braço,
são belezas raras,
saídas de corpos, suor e cansaço.
Passaram pela escola,
moldadas pelo mestre, tornadas rainhas
pararam no bairro,
daquela Sé velha, de ruas fininhas.
e, de lá do alto, passam-lhes as vidas
com risos e ais,
os homens sem sorte, bêbados de dor
sem rumo, sem cais.
As mulheres da vida, com mitos de amor
comprado à socapa,
e os ciúmes loucos, que desaparecem
na ponta da faca.
As rusgas singelas, desse S. João
eterno em mim,
procissões e missas, sinos a rebate
pelo fogo sem fim.
Vendas, falatórios, rostos encantados
sonhos de pobreza,
crianças sem roupa, sujas de pancada
sem nada na mesa.
E em dias de chuva, molhando em carícia
devolvendo a calma,
olho para cima e sei que são elas
as pedras com alma.
Lucinda Brochado
Sentir
Sinto-me perdido,
Como um barco à deriva no mar,
Caminhando no desconhecido,
Apenas com a luz do luar.
Sinto saudades da minha terra,
Daquele sol brilhante,
De ver aquela serra,
Percorrendo-a em sonhos, por um instante.
Vejo-a na minha imaginação,
Sentindo de novo a calma,
que me enche o coração,
E apazigua a alma!
Marcelo Vieira
novo, novissímo, piano, pianissímo
quando eu morrer, e tu ficares
e te disserem para chorares
não chores por mim, somente
pega em tudo, o que sobrou
no que o tempo não apagou
e apaga-me para sempre
quando eu morrer, novíssimo
de leve, suave, pianíssimo
vão achar-me breve o bastante
para chorar todas as dores
sobre as pétalas das flores
que irão secar num instante
quando eu morrer, no dia
não penses na companhia
que te dava, que te fazia
pensa apenas no quanto
o que em vida morreu
chora depois, que por enquanto
(choro eu.)
José Correia
Saudade
// Luzia //
A brisa do outono invade minha alma.
Folhas em palha colorem o caminho.
Vejo-me andando ao pôr da-esperança,
no vento do norte, em redemoinho.
Na face, brotam orvalhos noturnos.
Riscam lembranças de muitos momentos.
Meus ombros vergam nas curvas do dia,
cedendo ao fardo desse lamento.
Eu peregrino nas sombras desertas,
por um oásis no meio do nada.
E à flor da pele, minhas chagas abertas.
Oh, saudade que no tempo é pirata,
não vês que sangro à luz da poesia?
Devolva-me a Lua em tom de prata!
O Café
Vim para o café,
E pelos vidros observo
Pessoas apressadas a pé.
Triste vida esta,
Que faz do ser humano o seu servo.
E esperava eu que a vida fosse uma festa,
Uma festa de alegria e felicidade,
De amor e carinho,
Animada.
Mas, nesta cidade,
Tudo passa, nada fica.
Lisboa, sempre apressada.
Manuel Rosa
Ela
Fraca de qualidade é a história
Ou ao autor lhe parece.
Pede à amada o que merece
Indiferença, desdém ou glória.
Autor que não é único
Mas de único ser,
Amo-te e apaixonado fico
Por comigo à noite estares a ler.
Dá-lhe o que é e o que tem.
Se a faz sorrir, sorri também.
Somos o casal aqui ao pé,
Feliz a torna, feliz ele é.
Pedro Fonseca
E quando submetido a tal esforço,
Eis que me prende o pensar.
Sou então convertido a louco
Tudo o que sei agora é oco
E o que estava deixa de estar.
Então repouso.
Lembro-me do meu início e saio.
Retomo àquilo que sou e observo.
Refresco-me nesta brisa de Maio
Que abana o aconchegado verde tornado
Escuro pela noite; e dela sou servo
Estou de novo novo.
Já me surge o pensamento empurrado
Pelas ideias múltiplas e lineares.
Todo o eu está bem e aconchegado;
Estou feliz, Natureza, enquanto ficares…
João Batista
Mergulhas na cidade de cabeça...
Mergulhas na cidade de cabeça
Sabes o destino mas perdeste algures a direcção, o sentido, o rumo...
Os becos desertos atraem-te, os lugares devolutos, as terras de ninguém
Espreitas por janelas abertas, fragmentos de vidas inundam-te por frinchas e grades de portões antigos
Sorris aos indigentes, bêbedos, drogados, que se juntam nas soleiras a compensar solidões
Trocas uns latidos com cães infestados de pulgas, olhar inteligente e pêlo imundo
Mergulhas na cidade de cabeça
Já não sabes o destino porque o que te prende é o caminho
A surpresa a cada esquina, o que menos se espera em cada rua
Deixaste os lugares-comuns para te embrenhares nos pormenores do olhar atento e perscrutador de quem caminha devagar pela cidade... de quem olha, vê, repara, imagina até...
De quem vive a cidade
Mergulhas na cidade de cabeça
E afogas-te nela!
r.
MENTI
A minha vida continua...
sorrindo para quem
com sorrisos leves se insinua
e me quer bem.
Abraçando braços que me abraçam,
beijando bocas que me beijam...
ocultando estes sentimentos que não passam,
relembrando que te amam e desejam.
O meu coração só se encontrou no teu,
o meu amor está todo em ti.
Sei que imensas vezes te disse que morreu,
pois é amor, menti, menti!!!
A.Viana
Aniversário
hoje é o fim
de mais uma volta
em torno do sol
para celebrar
ontem era assim
mas não volta,
sem retorno, só
para se lembrar
Cássio Cundari
"Gente Como Eu"
Gente como eu, eis o momento!
Resta cada vez menos do que fomos
E da esperança do que seremos.
Corações ao rubro, revolta em movimento,
Porque palavras - até estas - leva-as o vento.
Sejamos cura para um País doente:
De políticos corruptos, parasitas descarados
E egoístas crentes na sua esperteza saloia.
Sem olharmos a maleita de frente
Seremos uns inúteis acomodados.
Façam a vossa parte! Eu vou fazendo a minha,
Numa luta com consequências nefastas,
Cujo fardo carrego com um sorriso...
Porque sei, gente como eu, que não é sozinha
Esta dor na alma, esta sede de Paraíso.
Não chega sofrer pelo povo!
A mudança emerge do combate
Que começa a cada amanhecer.
E é apetecível, é um mundo novo
Que devemos merecer.
Portugal ainda não morreu!
Não queiramos ficar a seu lado na morte,
Ajamos antes para mantê-lo com vida.
Pois, ainda que nos abandone a sorte,
Será livre de remorsos, a gente como eu…
Ângelo P.
A verdade é que estou sozinha
E se sou como sou é por assim deve ser,
E quando olho para trás não me vejo a mim
Não me reconheço em mim própria,
Os meus pensamentos e aspirações
São meus, mas ao mesmo tempo não são
Todo o meu ser é outro, todas as minhas recordações
São memórias da pessoa que não sou.
Na verdade, não posso e não sou real
Sou uma projecção dos meus medos e das minhas vontades,
Todas as minhas acções reflectem a pessoa que não sou
Mas não serei eu aquilo em que me tornei?
Não comando a minha existência, num voto de fé no destino
Deposito todas as minhas esperanças em mim.
Alice Fernandes
Pesadelo da realidade
Nunca pensei acordar de um pesadelo,
mas ao ver a realidade preferi dormir...!
nunca pensei que com tanto alento,
tanto pranto tão enfermo...
Esperasse com calma o fim.
Será que com tanta calma,
tanta vontade de desistir me fizesse lutar?
Acreditar, quem sabe imaginar um novo rumo, certo ou incerto presumo!
Mas seria revoltado enfim...
Tenho raiva nas veias, isso é certo...
É o que me faz querer lutar.
Não percebo o que quero, nem no que quero acreditar...!
Na verdade, sou criança,
nada me impede de o ser...
Mereço a felicidade,
como qualquer ser humano, fragil no entanto...
Como alguém longe de mim.
Amante de borboletas
Rosas
As rosas que te ofereci,
Naquele dia,
No chão espalhadas, hoje como nunca, jazem.
De outrora, toda a beleza,
Murchou:
O efémero é feito de assim ser.
Importo-te, a ti, não mais
Que momento
Definido (porque o fazes) como vida, ou algo mais.
Ainda assim, na maior eternidade
Que o eterno,
As rosas que não se são já no chão jazem
E o assim ser sempre foi,
Intrinsecamente,
No, que o não era, início.
Assim somos nós:
Flores.
Leonardo Bonfim
Outro ensaio sobre a cegueira
Se os teus olhos não se cruzam com os meus
E não ouves o toque do coração,
Nem te queixas das razões dos fados teus
É por seres especial, e eu já não.
Se na estrada onde seguimos lado a lado
Me desvio e me chamas à razão,
Continuo, mas no teu ombro encostado
Só por seres especial, e eu já não.
Qual de nós terá mais sorte no futuro,
Serei eu por me julgar um ser normal
Serás tu que derrubaste mais um muro
Apesar de regressares em cada vez,
Ao lugar inicial.
Qual de nós terá mais razões p’ra sorrir,
Serás tu porque o teu choro já secou
Serei eu pelo que ainda há-de vir
O que importa é o que a ternura fez,
Em iguais nos transformou.
Vitor Araújo
EU/TU…TU/EU
É inevitável olhar para trás
E não te ver ao meu lado…
E hoje sou quem sou
Porque te conheci…
Junto percorre-mos caminhos errados
E sem dar conta encontrámos o certo.
Contigo…
Chorei e ri,
Gritei e calei,
Errei e aprendi,
Repreendi e tolerei.
Agora sem ti conheci a saudade…
Eu sou eu porque estavas presente,
Trago parte de ti em mim.
A ti Amigo a minha vida dedico,
- e em nós me orgulho -
Porque sem ti não teria sido a mesma.
L. Carreira
MÚSICA
A música é a forma harmônica do som
que nos encanta para nos sensibilizar
e nos conduzir para juntos viajarmos
nas suas mensagens e nos completar.
Fazendo sinfonias para que fiquemos
encantados e quase que hipnotizados
com sua maneira sensível de cativar
nas cordas do violão e dos pianos.
Uma bela viagem a nos transportar.
Ficamos em transe com os andamentos
e seguindo cada compasso da canção,
obedecendo ao ritmo das suas notas
dos naipes orquestrais de transição.
Num acorde de escalas bem dispostas
ela busca tonalidades graves ou agudas
que a melodia desperta com os metais,
e nos deixa mais emotivos, inspirados
mais amorosos e muito mais musicais.
Autor: Jorge Barbosa
Não sei o que o meu amanhã trará
Sinceramente ainda bem que não o sei
Não fico triste pela dor que virá
E assim sei que amanhã mudarei
As tristezas que a vida nos traz
Não as deveríamos conhecer
Porque assim a vida seguiria voraz
E eu não tinha tanto medo de a viver
As lágrimas que me rolam pela face
E que o meu sorriso por vezes esconde
São as marcas desta estranha fase
E dos sentimentos que em mim se perde
Às vezes o desejo de fugir é grande
Tal como a vontade de desaparecer
Mas a força que trago em mim faz-me gigante
E infelizmente não me ensina a deixar de sofrer
Vou olhar o amanhã com um sorriso
E se a lágrima vier, deixá-la-ei cair
Não farei do sofrimento um mero submisso
Nem impedir a minha face de sorrir
Não deixarei que me magoem
Vou ser ainda mais tolerante
E os que mesmo assim me atraiçoem
A minha revolta sentirão a todo o instante
Diana Hilário
Sonho
Olhei no teu olhar turvo
Morte que te aproximas distante
Segui teus passos negros e fugi na noite
Ao longe aviste o luar de mil cores pintado
Libertando o aroma do vazio
Misturando-se num negro doentio de solidão...
Lágrimas libertaram-se dos meus olhos
Num flamejar de esperança
Desfeita pela desilusão. Cantei!
Cantei e ao cantar descobri... Senti
Senti-te envolveres-me
Tocar em meu rosto, minha face apagada
Pegares-me na mão como se de porcelana se tratasse
Vi em teus olhos a certeza, vi em teus olhos a dúvida
A alegria, a tristeza, a vida, a morte, a súplica!!
Que te gritei morte que caminhas lenta
Com um corpo de rocha feito
Senti teu cheiro pestilento
Tuas mão viscosas de carne viva
Passares as mão pelo meu corpo nú
Penetrares no meu olhar
O teu olhar mortífero
Prenderes-me com correntes de fogo
Queimando-me a pele branca e leve
Querendo fazer-me
Beber do teu sangue
Veneno que queima
Corrosivo para a vida
Gritei!...
...Acordei.
Patrícia Simões
Canção habanera
Um hímen arremessado
para o nada
uma cratera fictícia
dissimula
há um burro no cio
ali no cerro
que mostra seus dotes
ao futuro sogro
e o sogro ri
sonha vilmente
um hímen arremessado
para o lixo
a cavalo desde uma altura
com cara mestiça
com muitas caras
quase todas com pêlos
e um sorriso vertical
tão parecido à
Revolução cubana
Que me assusta.
Marcelo Faure
O Sono de Endimião
Ele abraça o absoluto para não deixar que um rasgo de consciência
Abra caminho para o início da decadência e que esta traga a apatia
De toda um corpo nascido para ser amado por toda a matéria
Tanto pela singelidade e ingenuidade dos que compactuam com a miséria
Que vivem sob o escudo e refúgio da infelicidade como condição
De uma vida servida sob a égide da mesurice, onde o fim representa
O inicio de um novo nada, o vácuo que eles engrandecem com a abnegação
Estando o Tártaro sempre presente para realçar tudo o que a alma apoquenta
Como por aqueles que abraçam a eternidade e dela baseiam a sua existência
Vivendo pela regência do extremo ao invés da tirania da abstinência
E ainda que já possuindo a eternidade como garantida, a cultivam
Para que esta assuma a sua forma, e quando disso os privam
O opróbrio justifica e a ira torna-se cúmplice para toda a impunidade
Ante sentenças e juízos que mantenham a ascese da hierarquia duradoura
E só eles podem inquisir, para os outros apenas resta a indolência da sobriedade
Não como causa mas como meio para que a sua existência seja imorredoura
A Lua traz sempre consigo a bênção resguardada pelo negrume da noite
E ela encontra nele um conforto para conflagrar o seu voraz apetite
E aceitar as coisas como elas são é resignar-se ao conformismo da limitação
A beleza apenas pode ser aceite nunca tomada, com o frenesim da adoração
Não há a ameaça da entrega, é tudo apenas pelo capricho, pelo prazer
É tudo uma ilusão mas ainda assim ensandecida está presente a inveja
Selene sacia os seus ímpetos apenas com o toque para o seu ego satisfazer
Os melindres da paixão fazem tudo ainda que apenas um corpo ela veja
Gustavo Ferreira
Solidão
(Elenir Duarte Dias, 06/02/2009)
Corro pela estrada
Sem direção
Me perco,
E descubro,
Estou na contramão.
Carros desviam-se de mim,
Do corpo,
Do solo.
Estou só.
Derrepente ali
Nada mais me prende.
Livre vôo,
O vôo da liberdade rumo ao infinito.
Ignoro
Sou um ignorante.
Perfiro não saber nada a ter que esquecer.
Sou, portanto, sentimentalmente preguiçoso.
Chego ao ponto de desconhecer a verdade
E por tal, ficar orgulhoso.
Mas a vida assim me tece,
E se tem que acontecer,
Porque é que nunca mais acontece?!
Ignoro.
Porque sou um ignorante.
Ou entao, resigno-me ao que acontecer doravante.
Posso tambem pedir perdão,
Mas se eu não ofendi ninguem,
Seria suplicar em vão
Porque não acredito no pecado
E muito menos na salvação.
E a conclusão?
Cada um que tire a sua.
João Humberto
Olha dentro do teu coração
Olha nos meus olhos
e verás o que significas para mim
Procura no teu coração,
procura na tua alma
Não me digas
mas só tu podes dizer
não vale a pena morrer
quando se ama
não vale a pena
Olha dentro de seu coração
tu irás me encontrar
eu não estou escondido
eu estou aqui
para ti
so para ti
Não há amor, como o teu amor
E ninguem me dara mais amor que tu
em lugar nenhum,
Tu estas sempre no meu caminho
esteja onde estiver
pense no que pensar
Olha dentro do teu coração,amor
eu estou lá
CSANTOS
SEM SEU SOL - Ieda de Paula
Sem seu sol
Sou silêncio
Sem seu sol
Sou sombra
Sem seu sol
Sou saudade
Sem seu sol
Sou sem sabor
Sem seu sol
Sou sandice
Sem seu sol
Sou sacrifício
Sem seu sol
Sou sem saída
Sem seu sol
Sou sacudida
Sem solo
Sem saga
Só saldo
Só sina
Sou sua
Sou sã
"O Primeiro Dia de Inverno"
Assombrado pelas memórias
De noites e vidas já deixadas
Afogo-me nas glórias
Destas grandes fachadas...
Esperançoso que venha, e leve
No seu toque, tão frio e rude
Que é sempre tão breve
Que não falha, e me ilude...
Vem o céu, cinza e perturbado
Com desdém dos orgulhosos
Lavar as ruas do pecado
Lavar até os tortuosos?
E esperam que eu, deitado
Neste chão de mármore vivo
Encontre o dito ditado
Por qual ando tão obsessivo?
No entanto, eu floresço
Mil vezes de seguida,
Noutro corpo grotesco
Para outra vida proibida...
Leonardo Faria (pseudónimo)
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